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Mãe Soberana

por Nuno Saraiva, em 01.06.04
Mãe Soberana



Encontrei a história da festa de que falei no meu post anterior.



No entanto, não explica o porquê de tanto correrem, para terminar a procissão.



E o que será que acontece à banda??





O ano de 1553 ficou a ser considerado como a data oficial da edificação da ermida de Nossa Senhora da Piedade pela mão do serralheiro Bartolomeu Fernandes. Diz Pedro de Freitas(1) que as festas em honra da Mãe Soberana teriam iniciado também por esta altura. Quando, em 1890, se criou a freguesia de S. Sebastião, Nossa Senhora da Piedade passou a ficar na igreja de S. Francisco, alteração que trouxe alguns dissabores entre os fiéis defensores da sua permanência na matriz e na igreja dos franciscanos. Mas não querendo enveredar por estas polémicas, menores em relação à grande fé que os louletanos têm pela sua santa, sublinhamos que a festa grande é hoje e desde décadas, considerada como a maior manifestação de religiosidade a Sul do Tejo.

As fontes escritas acessíveis até hoje, não são claras e comprovativas de que, no ano de 1553, a construção e a festa tenham coincidido. Os historiadores têm vindo a considerar esta data porque os documentos falam, ora da primeira metade do séc. XVI, ora no ano da sua reconstrução em 1555 pelo já anteriormente nomeado serralheiro(2). Pinheiro e Rosa mostra-se mesmo bastante céptico quanto a esta questão das datas mas nas Visitações da Ordem da Santiago às Igrejas do Concelho de Loulé em 1565(3) pode-se ler que a ermida foi edificada em 1553, documentação a que, provavelmente, Pinheiro e Rosa não teve acesso. Neste documento, dizem os visitadores: "Achamos haverá doze anos que foy esta irmyda edificada de novo por Bartolomeu Fernandez, cerralheiro, a sua custa, e jaz nella enterrado, (Ordem de Santiago, livro 230, rolo 44, AN/TT, fl.145v.).



Ultrapassando questões de interpretação das fontes, que os investigadores colocam em relação à expressão edificada de novo, pois tal pode significar a construção de raiz ou a reconstrução, ficou assim definido que, 1553 é a "data oficial" da edificação da Ermida da Nossa Senhora da Piedade. Teriam surgido as festas religiosas em sua honra, em simultâneo? Provavelmente. É legítimo pensar que sim, na medida em que é a crença que leva à edificação de ermida e, por conseguinte, leva também à sua manifestação por várias formas, entre as quais as procissões. Porém, não com os rituais e costumes dos nossos dias. Talvez do mesmo modo como, no século XVI se faziam as procissões, fora e em roda da igreja, com velas acesas(4)... ou já com a "viagem" da Santa para a vila, para a igreja de S. Clemente, onde se procediam aos rituais eclesiásticos e populares, com retorno da Nossa Senhora à ermida ...



O certo é que a Festa Pequena e a Festa Grande que hoje conhecemos é da Igreja e do Povo e que, a procissão, ao passar nas ruas da cidade deixa a marca da Fé, a emoção e o tremor dos lábios em oração, que tão bem a mão do pintor Carlos Porfírio transmitiu no quadro de inominável valor imagético dedicado à Mãe Soberana. Na "despedida" à cidade, pára em frente ao edifício dos Paços do Concelho, porque era aí, na Câmara, que se elegiam os mordomos da confraria de Nossa Senhora da Piedade e se nomeavam os homens que em cada ano transportariam o andor; porque se pretende sublinhar os laços eclesiásticos e laicos; porque se quer lembrar aos que tomam as rédeas ao poder local, a Piedade, a Honestidade, o Sofrimento enfim, a Humanidade.





(1) Quadros de Loulé Antigo, 2ª, Lx, 1980, p.159

(2) Pinheiro e Rosa, no antigo "História da Mãe Soberana", publicado na Agenda Cultural e Desportiva da Câmara Municipal de Loulé em Maio de 1992, diz que retirou a data de 1555do Guia de Portugal.

(3) Artigo publicado na revista Al-Ulyã, nº 8, 2002, da autoria de Luísa Fernanda Guerreiro Martins e Padre João Coelho Cabanita.

(4) Revista Al-Ulyã, nº 7, A.H. M. L., 1999/00, "A confraria do Santíssimo Sacramento de Salir (1550)", Luísa Fernanda Guerreiro Martins, p. 187 - 217. Esta hipótese poderá ficar ainda mais vinculativa caso se comprova que terá existido uma Via Sacra no exterior da ermida.




Texto: Luísa Martins, Arquivo Histórico



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publicado às 21:40



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