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Culto Mariano . . A defesa do Padre A. Vieira

por Nuno Saraiva, em 23.08.04
Ao remexer no que costumo chamar velharias, descobri um livro editado em 1954 pela livraria Sá da Costa com Obras escolhidas do Pde António Vieira.



Neste volume vem incluída uma missa de 1644, que é totalmente dedicada à defesa da razão de ser do culto Mariano.



O culto a Maria desde cedo tem vindo a ser criticado pelas correntes religiosas da “onda” evangelista.



O Padre A. Vieira fundamente o seu argumento na citação do evangelho: Maria optimam partem elegit



O maior problema que se apresentava à Igreja era a questão: Quem tem mais glória? Se Deus é glorioso acima de tudo porque invocar Maria?



Os excertos abaixo citados falam por si:





Pregado na Igreja de Nossa Senhora da Glória, em Lisboa, no ano de 1644



Bem se concordam, neste dia e neste lugar, o título da casa com o da festa e o da festa com o da casa: a casa da Nossa Senhora da Glória e a festa da glória da Senhora. O Evangelho que deve ser o fundamento de tudo o que se há-de dizer, também eu o quisera concordar nesta glória; mas o que dele e dela se tem dito atégora não concorda com o meu desejo, nem com o meu pensamento. O Evangelho diz que <<que escolheu Maria a maior parte: Maria optimam partem elegit: e os santos e teólogos que mais se alargaram, aplicando esta escolha e esta parte à glória da Senhora, só dizem que verdadeiramente foi a melhor, porque a glória a que a Senhora hoje subiu e está gozando no céu, é melhor e maior glória que a de todos os bem-aventurados.



Os bem-aventurados da Glória, ou são homens ou são anjos, e não só em cada uma destas comparações, senão em ambas, dizem que e maior a glória de Maria que a de todos os homens e todos os anjos, e não divididos, mas juntos.



Grande Glória! Grande, incomparável, imensa!



...mas nem o Evangelho assim entendido, nem a glória de Nossa Senhora assim declarada, nem a comparação dela assim deduzida, concordam com o meu pensamento. O Evangelho dizendo optimam parem parece-me que quer dizer muito mais. A Glória de Maria, sendo de Maria Mão de Deus, parece-me que é muito maior e a comparação com os outros bem aventurados somente, parece-me muito estreita e quase indigna.



Neste tão remontado sentido, pretendo provar e mostrar hoje que, comparada a glória de Maria com a glória do mesmo Deus e fazendo da glória de Deus e da glória de Maria duas partes, a melhor parte é a de Maria: Maria optimam partem elegit Até não me ouvirdes não me condeneis. E espero que não me haveis de condenar, se a mesma Senhora da Glória me assistir com a sua Graça. Avé Maria.



É certo que a Senhora foi escolhida por Deus para a glória e também é certo que a glória de Deus é infinitamente maior que a glória da Senhora e c que escolheu e escolheu a melhor parte, uma e outra cousa com grande mistério e energia. Diz que Maria foi a que escolheu, porque ainda a eleição foi da Senhora, a grandeza de sua glória é tão imensa que não parece que foi a glória escolhida para ela, senão que ela foi a que escolheu para si. E diz que Maria escolheu a melhor parte porque ainda que a glória de Deus é infinitamente maior que a sua, a melhor parte que pode escolher uma mãe é que a glória de seu filho seja a maior. Como Maria é mão de Deus, e Deus filho de Maria, mais se glória a Senhora que seu filho goze esta infinidade de glória, e de ela a gozar em seu filho, do que se gozara em si mesma.



Dizei-me: se houvera neste mundo uma dignidade, um honra, uma glória maior que todas, e que pusera na vossa eleição e na vossa escolha querê-la para vós ou para vossos filhos, para quem a havíeis de querer? - Não há dúvida que para vosso filho.



É verdade que a glória Deus é infinitamente maior que a e sua Mãe; mas como todo esse excesso de glória é de seu filho, e está em seu filho, ela a possui e goza em melhor parte, que se a gozara em si mesma.



Põe em questão Séneca e disputa subtilíssimamente do livro III do cinco que intitulou De Beneficiis se pode um filho vencer algum benefício a seu pai?



Quando os filhos vencem os pais e se ostentam maiores que eles <<felizes são os que vencem, e felizes são os vencidos; mas muito mais felizes os pais vencidos que os filhos vencedores, porque não pode haver maior gosto, nem maior glória para um pai, que ser-se vencido de seu filho, grande glória é do filho que vença o pai, ver que deu o ser a um tal filho que o vença a ele.



Quem pudera imaginar que Júlio César, vendedor de Cipião e de Pompeu - e de tantos outros capitães famosos, que junto a estes perdem o nome – triunfador da África, d Egipto, das Gálias e das Espanhas e da mesma Roma; aquele, enfim, de tão altivo coração que ninguém sofreu lhe fosse superior ou igual no mundo; quem pudera imaginar, digo, que havia de gostar e gloriar-se de ser vencido de outro? Mas como Augusto que o vencia era filho seu, o ser vencido dele era a sua maior vitória, este o maior triunfo dos seus triunfos, esta a maior glória das suas glórias: Et vinci gaudet ab illo.



Celebra Plutarco, tão insigne historiador como filósofo, o grande extremo com que Filipe, rei de Macedónia, amava o seu filho Alexandre, já digno do nome de Grande em seus primeiros anos, pela índole e generosidade real que em todos os seus pensamentos, ditos e acções resplandecia. E para prova deste extremado afecto, refere uma experiência que nos vassalos pudera ser tão arriscada como do rei mal recebida, se o amor de pai a filho a não interpretara de outra sorte. Foi o caso que os Macedónios, sem embargo da Fé que deviam a Filipe, publicamente chamavam a Alexandre o Rei e a Filipe o Capitão. Mas como castigaria Filipe este agravo?- Não há cíumes mais impacientes, mais precipitados e mais vingativos do que os que tocam no ceptro e ba coroa. Apenas tem havido púrpura antiga nem moderna, que por leves suspeitas neste género se não tingisse em sangue. E que sofra Filipe, aquele que tanto tinha dilatado o império de Macedónia, que seus próprios vassalos em sua vida, e em sua presença lhe tirem o nome de Rei e o dêem a Alexandre”



Muito fora que o sofresse, mas muito mais foi, que não só o sofria, senã que o estimav e se gloriava muito disso. Ouvi a Plutarco: Hinc filium non immerito Philippus dilexit, ut etiam gauderet cum Alexandrum Macedones regem, Philippum appellarent Ducem. Era Filipe pai e Alexandre filho, e tão fora estava o pai de sentir que lhe antepusessem o filho, que antes o tinha por lisonja e glória, e esse era o seu maior gosto: Ut etiam gauderet. Quando lhe tiravam a coroa para a dar a seu filho, então se tinha Filipe por mais coroado; quando já faziam a Alexandre herdeiro do reino, antes de lhe esperarem pela morte, então se tinha como imortal, quando o apelidavam com menor nome, então se tinha por maior. E quando lhe diziam que ele era só capitão, então aceitava esta gloriosa injúria, como os vivas e aplausos de mais ilustre vitória, porque a maior glória de um pai é ser vencido pelo seu filho. Et vinci gaudet ab illo.



Notai muito as palavras Quod magis est optbile, vincit, e aplicai-as ao nosso caso. O que mais se deve desejar é o melhor que se pode escolher, e como o que mais devem desejar os pais é que os filhos os vençam e os excedam, bem se conclui que, se entre a glória de Deus e de sua Mãe, fora a escolha da mesma Mãe, o que a Senhora havia de escolher para si é que seu filho a excedesse e vencesse na mesma Glória, como verdadeiramente excede e vence.



Vence Deus incomparavelmente sua Mãe na glória infinita que goza, mas com este mesmo excesso é o mais que Maria podia desejar e o melhor que devia escolher como mãe, por isso se diz com razão que Maria escolheu a melhor parte: Maria optimam partem elegit.




Para ver estas frases no contexto original, ver aqui.

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publicado às 14:53



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